ISSN: 1983-6007 N° da Revista: 25/26
Janeiro a Junho de 2015
 
   
 
   
  Artigos  
   
     
 

CACO1: TRABALHO DE CONSTITUI��O DE SI MESMO FRAGMET: SELF-CONSTITUTION WORK

 
     
 

 

Resumo: Trata-se do relato de um caso de uma paciente psic�tica que experimenta grande sofrimento ao deparar-se com a fragmenta��o da pr�pria figura. A experi�ncia evidencia o trabalho na psicose de constitui��o de uma imagem para si, algo que possa minimamente instituir um corpo que sustente o sujeito. Destaca-se a maneira como o pr�prio sujeito indica � analista a dire��o do tratamento, mostrando as ferramentas capazes de construir o caminho a ser trilhado na constitui��o de si, passando por diversos personagens e manejando diferentes recursos terap�uticos. Tal trajet�ria cl�nica � relatada a partir do acompanhamento realizado no contexto do Programa de Resid�ncia Multiprofissional em Sa�de Mental.

Palavras-chave: psicose; constitui��o da imagem; manejo cl�nico. Abstract: This is a case study of a psychotic patient experimenting great suffering when faces the fragmentation of her own figure. The experience enlightens the work in the psychosis on constitution one image for himself, something that could minimally institute a body that sustain the subject. Stand�s out the form how the subject himself indicate the direction of the treatment, showing the tools able to construct a path to be followed in the process of his own constitution, passing through several characters and maneuvering different therapeutics resources. Such clinical trajectory is reported on the basis of the Multi-professional Residence Program in Mental Health.

Key-words: psychosis, constitution of the image, clinical maneuver. 1 Caco: termo t�cnico utilizado no teatro que designa �fala improvisada para consertar algum erro ou substituir algum elemento ausente, seja no texto ou na cena. Caco tamb�m � a fala inexistente no texto da pe�a, mas que o ator introduz no desenrolar da cena� (informa��es retiradas do site: https://www.desvendandoteatro.com). Consideramos pertinente o uso dessa terminologia no trabalho de constru��o subjetiva exercido pela paciente em quest�o CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 56 Cenografia2: Esmeralda3 chegou ao hospital psiqui�trico em mar�o de 2018 trazida pelo SAMU que relatou invas�o a pr�dio p�blico e agress�o aos funcion�rios do local, agita��o psicomotora e discurso desconexo. Estava sem seus documentos, em estado descrito na evolu��o de admiss�o como �maniforme�, sendo a realiza��o da entrevista �muito dif�cil�, segundo o acolhedor.

Nesta ocasi�o, Esmeralda n�o teve condi��es de fornecer dados pessoais em virtude do estado de agita��o e confus�o em que se encontrava. Encaminhada ent�o para a enfermaria do hospital, ela � reconhecida por um dos m�dicos ali alocados que a nomeia e diz t�-la visto no CAPS (Centro de Aten��o Psicossocial) de seu munic�pio, embora n�o tenha sido respons�vel pelo seu tratamento na �poca. A partir desta informa��o � poss�vel localizar o contato da fam�lia de Esmeralda e obter panorama do acompanhamento psiqui�trico que havia realizado at� ent�o: trata-se de sua primeira interna��o na institui��o psiqui�trica, com pouca ades�o aos tratamentos pr�vios, muitas idas e vindas entre dois CAPS, um em Belo Horizonte e outro na regi�o metropolitana. O contato com a fam�lia � realizado e, com certa dificuldade, consigo falar com a m�e de Esmeralda e agendar uma conversa. Obtemos mais informa��es sobre ela: Esmeralda tem 23 anos, � primog�nita, estudou at� a 7� s�rie, tem uma filha de 5 anos criada pela tia materna, seu pai biol�gico est� preso desde que era pequena, mora atualmente com o namorado, por�m j� viveu com a av� materna (que reside em Belo Horizonte) e com a fam�lia (m�e, padrasto e tr�s irm�s mais novas) em um munic�pio na regi�o metropolitana. Deixou de frequentar os servi�os de sa�de mental e de tomar a medica��o h� 1 ano. A m�e descreve Esmeralda como tendo comportamento �normal� quando crian�a, apesar de um pouco atrasada na escola. Aos 17 anos, aproximadamente, come�ou a apresentar comportamento �estranho�, iniciado ap�s viagem com amigos � praia. Pouco tempo depois a fam�lia soube que estava gr�vida do seu namorado na �poca.

A m�e n�o associa a gravidez ao in�cio do quadro, apesar da proximidade cronol�gica do in�cio dos sintomas, fato que me provocou surpresa e aten��o para um poss�vel desinvestimento da m�e em rela��o a Esmeralda. 2 �Conjunto de elementos organizados no espa�o c�nico (palco), representando o lugar, ou lugares, onde acontecem as a��es dram�ticas interpretadas� (informa��es retiradas do site: https://www.desvendandoteatro.com). 3 Nome fict�cio. CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 57 Durante a entrevista percebo que a m�e me fornece informa��es vagas, imprecisas, com dificuldade em apresentar a hist�ria de Esmeralda e por vezes com dados contradit�rios, como se estivesse distanciada afetivamente da filha. Uma tia materna diz acreditar que Esmeralda fez uso de drogas durante a viagem, o que poderia ter �causado� os comportamentos percebidos como estranhos, mas n�o sabe dizer com exatid�o se ela j� havia feito ou n�o uso de subst�ncias psicoativas. A m�e relata que ao longo da gesta��o a filha passou a escutar vozes, falar sozinha e alegar que estava sendo perseguida, com intensifica��o destes comportamentos conforme se aproximava o parto. Durante este per�odo, Esmeralda fez uso de medicamentos em quantidade reduzida e sob monitoramento, segundo informa��es obtidas nos prontu�rios do servi�o de sa�de mental para crian�as e adolescentes o qual frequentou.

N�o foi indicada a interna��o psiqui�trica na �poca em raz�o da gravidez. Ap�s o parto, os sintomas n�o cederam. Em uma ocasi�o, Esmeralda fez as malas dela e da crian�a, saiu de casa com a filha e retornou apenas � noite, sem as malas e dizendo coisas confusas. Eventos semelhantes a este e um contexto em que nenhum familiar poderia acompanhar Esmeralda ao longo do dia, fizeram com que a fam�lia optasse por entregar a crian�a, com 1 ano e 7 meses, aos cuidados da tia materna, sem o consentimento de Esmeralda. A m�e diz que Esmeralda � de muito f�cil conviv�ncia quando n�o est� �em surto� (sic), mas que quando em �surto� ningu�m a aguenta e entra em conflito com todos na fam�lia. Descreve as crises como epis�dios de extrema agita��o e irritabilidade ou de tristeza profunda e isolamento.

Explica que antes a fam�lia vivia em Belo Horizonte e que, quando se mudaram para uma cidade pr�xima, Esmeralda decidiu n�o ir junto, o que justifica que esteja referenciada em servi�os de diferentes regi�es e que oscile entre pelo menos duas moradias. Sobre as passagens de Esmeralda pelos servi�os, a fam�lia informa que iniciou acompanhamento aos 17 anos, quando do surgimento dos primeiros sintomas. As informa��es prestadas pelo servi�o s�o parecidas �s fornecidas pelos familiares, que descrevem comportamentos bizarros e falas desconexas ap�s retorno da viagem, al�m das hip�teses diagn�sticas de F.29 (Psicose n�o-org�nica n�o especificada) e F.39 (Transtorno do humor n�o especificado). Ap�s completar 18 anos foi referenciada no CAPS de sua regional em Belo Horizonte e posteriormente no da regi�o metropolitana, quando sua m�e se mudou. Nos dois CAPS pelos quais passou n�o consegui contato com suas refer�ncias t�cnicas, apenas plantonistas, de modo que, al�m de uma evidente recusa de ades�o aos servi�os, n�o pude conhecer muito da hist�ria do tratamento. CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 58 A equipe do hospital ent�o se voltou para as informa��es trazidas pelo m�dico que a reconheceu em sua chegada na institui��o, que a descreve como uma paciente tranquila, calada, sol�cita com os demais usu�rios e muito zelosa de sua pr�pria apar�ncia, comportamentos que diferiam muito dos apresentados durante a interna��o. A fam�lia n�o possui informa��es atualizadas sobre a rotina da usu�ria, j� que esta havia se mudado novamente para Belo Horizonte com o namorado.

N�o sabem se ela fez ou n�o acompanhamento neste per�odo. O namorado foi desaprovado pela fam�lia por fazer uso de drogas e apontado como influ�ncia para que Esmeralda tamb�m iniciasse, aos 20 anos, uso de maconha, lol�, coca�na e �lcool. Ao contr�rio da tia materna, a m�e acredita que Esmeralda nunca havia usado tais subst�ncias antes do encontro com este namorado. Texto4 As primeiras conversas com Esmeralda foram muito proveitosas para estabelecer a transfer�ncia, por�m forneceram poucos elementos da hist�ria dela. Ainda se apresentava extremamente agitada, �s vezes hostil, confusa sobre onde estava e em rela��o �s pessoas que a rodeavam. Prontamente, a usu�ria passa a me chamar de Geane, nome de uma amiga que mais tarde a m�e confirmou parecer-se comigo. Da mesma forma, identificava muitas pessoas ao seu redor como conhecidas: uma outra usu�ria era sua filha; um t�cnico de enfermagem seu pai; uma funcion�ria, sua tia. Comunicava-se ora balbuciando conte�dos desconexos, ora gritando, pulando e correndo pela enfermaria. Quando eu dizia que n�o a escutava, Esmeralda me respondia que o rem�dio a deixava assim, explicando a raz�o de abandonar os medicamentos porque �eles me deixam abobada�. A dificuldade de comunicar-se, por�m, n�o resistiu � primeira visita da m�e. Ao v�-la, Esmeralda come�a a chorar e fala � m�e muito claramente sobre o que lhe d�i: o sentir-se abandonada por ela, as situa��es de viol�ncia na fam�lia, a impot�ncia sentida diante da situa��o.

Aos poucos surgem as primeiras demandas dirigidas ao Outro, como a aus�ncia da m�e que a visita pouco e vez ou outra desliga o telefone quando percebe que a liga��o � do hospital e deixa de atender. Os dentes que lhe faltam come�am a incomod�-la muito, a ponto de agitar-se demandando seus implantes dent�rios. Os documentos passam a fazer falta, pois sem eles n�o � poss�vel obter a medica��o necess�ria via Secretaria Estadual de Sa�de. Esmeralda 4 �Obra liter�ria espec�fica para o teatro, cont�m os di�logos e as indica��es de cena. Sozinho, o texto � apenas liter�rio, transformando-se em teatro quando encenado� (informa��es retiradas do site: https://www.desvendandoteatro.com). CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 59 reclama do tratamento que recebe pelos funcion�rios, das constantes conten��es, e, sobretudo a falta da filha.

Agita-se constantemente, com rompantes de agressividade e � considerada de dif�cil manejo pela equipe da enfermaria. Envolve-se em brigas com outras usu�rias por reconhecer nelas pessoas com quem tinha conflitos ou por acreditar que eram as respons�veis pelo afastamento da filha, chegando ao ponto de passar alguns dias em outra enfermaria do hospital para sua pr�pria seguran�a. Sinaliza atrav�s de suas constru��es abusos e ass�dios de ordem sexual e moral sofridos, por�m n�o consegue me responder quando pe�o que explique melhor.

Ante estes acontecimentos de sua vida e per�odo de interna��o, Esmeralda sentia-se muito injusti�ada e era impactante testemunhar este sofrimento enunciado aos gritos. Vigan� (1999, p.56) prop�e como abordagem cl�nica a constru��o do caso, isto �, o trabalho de quem escuta em costurar os elementos subjetivos trazidos pelo paciente �para que o analista esteja pronto a escutar a sua palavra, quando esta vier�. Esmeralda dizia �eu apanho e ainda sou amarrada�, �levaram minha filha e me amarraram aqui�, �jogam coisas estragadas dentro de mim�. Vigan� (1999, p.46) chama de diagn�stico do discurso este que, atrav�s da constru��o do caso, �(�) tende a trazer � luz a rela��o do sujeito com o seu Outro, portanto tende a construir o diagn�stico do discurso e n�o do sujeito�. Mais al�m do diagn�stico de estrutura, o diagn�stico do discurso permitiu entender como Esmeralda apreendia o Outro naquele momento, atrav�s de seus gestos, rea��es, falas, comportamentos e express�es. O Outro se apresenta para Esmeralda como um algoz que a trata com injusti�a, que faz uso de seu corpo � sua revelia. O Outro terr�vel e gozador, destacado por Quinet (1997), � este que toma o sujeito psic�tico como objeto de uso e gozo pr�prios. � um Outro maci�o que �n�o � barrado, � consistente (�) por carecer do significante da lei, � um Outro absoluto ao qual o sujeito est� submetido�(Quinet, 1977, p.17). � o Outro caracter�stico da estrutura psic�tica, devido � falta da castra��o simb�lica.

Esmeralda resistia durante todo o per�odo de conten��o, dizia que seus bra�os estavam sendo quebrados, seu corpo invadido, que roubavam sua filha e que a estavam punindo. Relatou por diversas vezes ter sentido que fora abusada durante a realiza��o da conten��o. Como aponta Zenoni (2000), institui��o e cl�nica psicanal�tica em suas manifesta��es mais tradicionais apresentam ou j� apresentaram atua��es diferentes, mais precisamente opostas, no acolhimento de um indiv�duo/sujeito. Enquanto a institui��o representava uma �necessidade social, (...) necessidade de uma resposta social a fen�menos cl�nicos, a certos estados da psicose, a certas passagens ao ato�(Zenoni, 2000, p. 13-14), a escuta psicanal�tica CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 60 se dirigia ao sujeito e a todas as constru��es por ele realizadas, a todas estas manifesta��es sintom�ticas. A problematiza��o dessa rela��o entre institui��o e cl�nica psicanal�tica, tal como prop�e o autor, � que se coloque em quest�o �n�o (�) qual psican�lise praticar na institui��o, mas qual institui��o praticar na psican�lise, [o que] sup�e reconhecer a motiva��o cl�nica da institui��o� (Zenoni, 2000, p. 16).

Existe nesta configura��o uma dimens�o de abrigamento e fun��o social, mas tamb�m de escuta e aten��o ao caso em sua singularidade. H� que se perguntar se todos os sujeitos em agita��o psicomotora experimentam da mesma forma a conten��o e estar atento ao discurso constru�do a partir desta experi�ncia. Para Esmeralda, durante o per�odo daquela interna��o, a resposta protocolar da institui��o ao que ela apresentava como �comportamentos inadequados� fez com que se esvaziasse de alguma forma a dimens�o cl�nica e permanecesse apenas o Outro Institucional concreto, invasor e tir�nico. Esmeralda convocava ent�o que este Outro fosse regulado, demandava alguma interven��o. Escutando seu sofrimento, assumi que meu papel era ent�o ocupar outro lugar que n�o este, �n�o presentificar a vontade do Outro, mas (...) presentificar um Outro que � ele mesmo submetido a uma lei� (Zenoni, 2000, p. 22). Eu teria que entrar em cena como Outro esvaziado de saber: Essa posi��o de um sujeito suposto n�o saber � uma posi��o favor�vel para encontrar um sujeito que sabe o que acontece com ele, que � ele mesmo a significa��o do que lhe � endere�ado enigmaticamente. � uma posi��o favor�vel para encontrar esse sujeito, sem alimentar uma posi��o intrusiva, persecut�ria de transfer�ncia (Zenoni, 2000, p.20).

Quanto ao meu papel no processo cl�nico, este seria sinalizado por Esmeralda. Teria que praticar o que Miller chama de objeto-psicanalista: �vers�til, dispon�vel, multifuncional (...). O psicanalista oferece deste modo, com o objeto-psicanalista, um lugar vacuolar, um espa�o entre par�nteses, onde o paciente tem um lazer, por um tempo restrito, de ser sujeito, quer dizer, de faltar ser aquilo que, por sinal, o identifica (Miller, 1999, p.54). Passei ent�o a acompanhar Esmeralda durante as conten��es que eu presenciava. Descrevia como estavam seus bra�os, anunciava se chegava algu�m, permanecia ao seu lado secretariando o contato com o ambiente que se apresentava como t�o amea�ador. Quando Esmeralda pedia que eu retirasse as conten��es, sempre respondia que eu n�o tinha esta possibilidade, que n�o era uma decis�o que estava ao meu alcance, demonstrando que eu tamb�m estava submetida � lei. Solicitava, entretanto, que ela me apresentasse um CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 61 caminho: �vou ficar aqui com voc�, o que posso fazer para te ajudar?�. Nas primeiras tentativas, Esmeralda sequer me escutava, porque n�o parava nem por um instante de gritar para que a soltassem.

Nas conten��es posteriores, passou a solicitar que eu permanecesse com ela durante o tempo em que ficava contida. �s vezes pedia que eu verificasse seus pulsos, se estavam roxos, se estavam quebrados, pedia �gua. Com o decorrer do tempo, Esmeralda passa a solicitar minha presen�a durante as conten��es com mais frequ�ncia, �s vezes queria contar sua vers�o, �deixa eu te explicar porque me amarraram, n�o tem nada a ver com o que t�o falando�, �s vezes pedia que eu colocasse can��es evang�licas em volume m�ximo ao lado de seu ouvido no travesseiro. Figurino5 Ao longo do tratamento v�o surgindo v�rias quest�es em rela��o � pr�pria identidade e imagem. Esmeralda recorda-se de ter atirado seus documentos por cima de um ve�culo do �MOVE� e, mais tarde, explica que se sentia muito mal em ter uma carteira de identidade sem sua assinatura, apenas com a impress�o digital. Contava que, ao sair com amigos, apenas ela apresentava o documento sem sua assinatura e temia que as pessoas achassem que era "burra". A m�e conta que Esmeralda frequentemente perdia seus documentos, e como em v�rias destas ocasi�es encontrava-se em crise e sem condi��es de assinar o pr�prio nome, acabou-se por identific�-la pela digital. Quando questiono se sabe escrever responde que sim, pede um papel e o demonstra. Passamos ent�o a �treinar� a assinatura para seu pr�ximo documento de identidade. A quest�o da identidade perpassa todo o tratamento, pois � o que sinaliza a dificuldade de Esmeralda em rela��o � pr�pria imagem, a falta de elementos de que disp�e para falar sobre si. Quinet (1997) coloca que o sujeito psic�tico, antes do surto, viabiliza sua exist�ncia no mundo atrav�s do registro imagin�rio, pois carece da refer�ncia simb�lica. � a entrada do sujeito no registro simb�lico o que possibilita a constitui��o do Eu, a realiza��o da separa��o do sujeito em rela��o ao Outro. O psic�tico n�o estabelece tal separa��o, justamente pela falta de inscri��o da met�fora paterna que regula a rela��o do sujeito com o mundo, ent�o ir� tomar o outro como "espelho e modelo de identifica��o imediata" (Quinet, 1997, p.18-19). � uma rela��o n�o mediada pela linguagem em que o semelhante � 5�Figurino � o conjunto de vestimentas e acess�rios usados pelos atores em cena. O traje usado por um personagem de uma produ��o art�stica. Mais que uma roupa, o figurino possui fun��es espec�ficas no contexto, como marcar a pr�pria presen�a, chamar a aten��o, dar destaque a determinadas partes do corpo� (informa��es retiradas do site: https://www.desvendandoteatro.com). CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 62 apreendido apenas em sua imagem, que por sua vez reflete o pr�prio sujeito. Esta manobra Quinet (1997, p.18) chama de "bengalas imagin�rias", compensa��o que coloca o sujeito em situa��o pouco est�vel que a qualquer momento pode chegar a falhar.

O surto � o momento em que este apoio vacila e o sujeito se depara com o vazio simb�lico que, para ele, � inexplic�vel. Esmeralda se identifica �s demais usu�rias da enfermaria, as quais considera bonitas. Diz que est� no �Big Brother� e que agora sim iria �deixar as recalcadas no fundo do po�o�. Quando diz que �� a outra usu�ria� e n�o que �gostaria de ser como aquela pessoa�, est� dizendo desta continuidade entre ela e o Outro, demonstrando o "transitivismo" (Quinet, 19997, p.18) presente nesta rela��o, ou seja, a falta de distin��o entre ela e o Outro. Sua certeza de ser a participante do "Big Brother" que assiste na televis�o � t�o grande que se alegra em poder deixar as "inimigas no ch�o" e planeja mudar-se para "uma quitinete no Rio de Janeiro". Nos raros momentos em que se depara com os fragmentos da pr�pria imagem, Esmeralda sofre com o que enxerga. Sente que pode ser preterida por sua cor de pele e ao falar sobre a alta hospitalar diz que �n�o vou ser mais piriguete, vou vestir chique�. No processo de confeccionar nova carteira de identidade para ela, temos que tirar fotografias suas. Ao olhar para uma delas Esmeralda se joga ao ch�o chorando e diz �estou com cara de sofrida�. Na hist�ria familiar o sentimento de rejei��o tamb�m aparecia. Relata que a m�e prefere todos a ela, que na presen�a de visitas tinha que sair da pr�pria cama para que outra pessoa dormisse. Conta que suas irm�s a ignoravam e as pessoas achavam que �� louca�, e era este o motivo de sua recusa em usar o transporte de busca ativa do CAPS.. Mantinha este discurso ambivalente, ora �deixando as recalcadas no ch�o�, ora sofrida, invadida, ignorada. A maior parte de suas falas oscilavam entre estes dois pontos.

O discurso delirante de Esmeralda trazia em si uma tentativa desesperada de dar conta da devasta��o que sentia ao se deparar com um corpo fragmentado e rejeitado. Quinet (1997) explica a fun��o da constru��o delirante: O del�rio �, portanto, n�o algo a ser combatido para ser destru�do, mas � o pr�prio trabalho de elabora��o do sujeito para viver num mundo suport�vel. (...) Esse trabalho da explica��o do universo, equivalente ao trabalho delirante, � o �nico meio pelo qual o sujeito pode voltar a encontrar sentido na vida (Quinet, 1997, p. 57-58). CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 63 A principal quest�o que surgia para mim ao escut�-la era: como ajudar esse sujeito a aparecer, mesmo que delirante? Como ajud�-la a retomar elementos mais pr�ximos de sua pr�pria hist�ria, mais pr�ximos de sua corporalidade, para colocar uma barra a esse Outro que se mostra devastador? Ser� que a �nica forma de satisfazer o desejo do Outro seria que Esmeralda se fundisse a uma personagem do Big Brother? A dire��o a ser seguida apenas Esmeralda poderia me indicar e ela mesma j� havia iniciado o trabalho de colar, peda�o a peda�o, seu ser estilha�ado. Em uma das oficinas de m�sica que propus dento da enfermaria, Esmeralda me pediu incessantemente que colocasse para tocar uma can��o chamada "Suelen", afirmando "essa m�sica fala de mim". Ap�s buscar diversas vezes e com a ajuda de outras usu�rias, encontrei a can��o que se chama "Outro Olhar" do Mc Martinho. Esta m�sica diz: "Vim aqui, contar uma hist�ria, que no meu cotidiano, j� � normal, de uma mina criada em favela, que almejava alcan�ar seu so-social. Uma menina ainda muito adolescente, da pele negra, conhecida como Suelen, ambiciosa, n�o quer mais a vida sofrida, confunde a realidade com a fantasia, (...) Mais pra subir de vida n�o tinha condi��o pra piorar ela t� gr�vida de um vacil�o se sentindo perdida e cheia de revolta imaginou que ia embarcar num caminho sem volta. (...) Ela queria poder, queria brilhar, a mina Suelen ficou perigosa, perdeu o olhar de inocente, virou criminosa.

� Ao escutar a letra, percebi que abordar temas pr�ximos ao contexto de Esmeralda seria um caminho atrav�s do qual poderia ajud�-la a criar um esbo�o de identidade. Al�m da assinatura para a carteira de identidade, continuamos "treinando" o falar sobre si. Esmeralda fazia algum coment�rio sobre o baile funk e eu lhe perguntava quais roupas gostava de usar, quais m�sicas eram melhores para dan�ar, qual baile frequentava. Se me informavam que ela esteve aos beijos com outro usu�rio, perguntava sobre seus CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 64 relacionamentos anteriores. Quando me pedia para trazer-lhe doces, eu perguntava o que gostava de comer, se sabia cozinhar, quais atividades dom�sticas ela costumava realizar. Pouco a pouco, Esmeralda vai construindo uma colagem que explica melhor sua exist�ncia, que viabiliza de forma mais eficaz seu ser neste mundo. O que ela constr�i n�o � exatamente o que o Outro quer dela, ou seja, ela n�o � branca, famosa e rica. O que se forma � uma identidade sustentada pelo seu entorno e sua hist�ria, manobra que faz com que o Outro se apresente menos maci�o, menos exigente de tudo aquilo que ela n�o �. Ilumina��o6 Em um dos atendimentos, perguntei � Esmeralda se j� havia estado na batalha de MC's que ocorre embaixo do Viaduto Santa Tereza no centro de Belo Horizonte. Seu rosto se iluminou, deu um sorriso e disse que sim. Conversamos sobre o evento, me contou que ia sozinha, pois n�o tinha muitos amigos e disse o nome art�stico que gostaria de usar se fosse MC. Neste dia eu tinha em meu celular algumas bases de rap que pretendia utilizar na oficina de m�sica.

Como Esmeralda ainda n�o falava muito organizadamente sobre si, propus colocar para tocar a base do rap e que ela constru�sse uma letra para aquele som. Ela pareceu gostar muito da ideia e comp�s, no improviso, diversas letras. Falou sobre religi�o, sobre seu pai, sobre rela��es pessoais, sobre sexo e times de futebol. Esmeralda disse ali muitas coisas que nunca havia falado antes, falou sobre sua hist�ria e de como se sentiu diante de algumas situa��es e pediu que eu gravasse tudo para que ela pudesse escutar depois. Com o avan�o do tratamento, Esmeralda parece cada vez mais resgatar tra�os que podem ter lhe ajudado a se sustentar durante parte de sua vida. Aquele apoio constru�do para dar conta do inexplic�vel, perdido no momento anterior � interna��o, aos poucos vai tomando forma em sua nova vers�o. Passa a cuidar mais da pr�pria apar�ncia e se comporta de maneira af�vel a maior parte do tempo. Volta a se aproximar da fam�lia e faz considera��es sobre como seria voltar a viver com ela. Pensa no namorado, reflete sobre esta rela��o. Nos atendimentos, fala mais sobre si e apresenta demandas. Em ocasi�es me aborda no corredor para dizer que pensou sobre o que foi conversado anteriormente e que queria compartilhar seus planos.

Esmeralda estava construindo, falando sobre si e marcando para a equipe como seria o tratamento a partir do que era poss�vel para ela. 6 �A ilumina��o pode dar �nfase a certos aspectos do cen�rio, pode estabelecer rela��es entre o ator e os objetos, pode enfatizar as express�es do ator, pode limitar o espa�o de representa��o a um c�rculo de luz e muitos outros efeitos� (informa��es retiradas do site: https://www.desvendandoteatro.com). CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 65 Nas �ltimas semanas de interna��o, Esmeralda passa a fazer planos sobre sua alta durante os atendimentos. Menciona v�rias vezes que tem "problema de cabe�a", mas pondera que muitas pessoas por a� "s�o mais doidas do que eu". Ela fala que s� queria que as pessoas tivessem mais paci�ncia com ela, que a tratassem melhor. O Outro que antes gritava que Esmeralda era louca, passou a ter furos, j� que este Outro em alguns momentos estaria "mais louco" que ela. A institui��o n�o � mais percebida como pris�o, um "lugar onde me torturam", como dizia em v�rias conversas com a m�e pelo telefone. O hospital passou a ser um lugar de tratamento, do qual queria desesperadamente sair, mas reconhecido como espa�o de recupera��o. Esmeralda iniciou o movimento de buscar quais de suas escolhas a haviam levado at� ali. Pensava sobre sua sa�da prematura da escola, sobre ter engravidado muito jovem e sobre o uso de drogas. Um dia me disse "eu j� sei o que me deixa louca.

� a droga, eu n�o vou mexer com isso mais n�o". Outro dia dizia que o que a deixava "louca" era n�o trabalhar e que, mesmo que conseguisse o benef�cio que est�vamos pleiteando, continuaria vendendo balas no sinal. Esmeralda queria, al�m disso, voltar a estudar, ir ao baile funk que gostava de frequentar, cuidar do sobrinho que estava prestes a nascer, realizar tarefas dom�sticas, tomar a�a�... era evidente e admir�vel sua anima��o em poder voltar a decidir o que fazer da pr�pria vida. Em junho de 2018, Esmeralda teve alta, ap�s mais de tr�s meses de interna��o. Nas semanas anteriores havia definido, sobre seu pr�prio projeto terap�utico, que n�o gostaria de seguir tratamento no CAPS, por diversas raz�es que apresentou para justificar sua decis�o.

Disse tamb�m que n�o tomaria nenhuma medica��o, al�m daquela que estava tomando naquele momento, que n�o queria mais "estar dopada". Nos contou que iria sair com os amigos no fim de semana, mas que n�o gostaria de usar drogas. Planejava n�o corresponder �s provoca��es que lhe fizessem, queria "ficar tranquila". Apontou que preferia seguir tratamento no ambulat�rio do hospital, com o m�dico que j� a atendia, planejava seu caminho at� o hospital e pensava em vender balas antes e depois da consulta. Como sua interna��o havia sido longa, pensamos juntas como poderiam transcorrer os primeiros dias ap�s a alta e articulamos algumas possibilidades de cursos e oficinas pr�ximas � sua casa. Esmeralda disse mais de uma vez que n�o compareceria � Perman�ncia Dia do CAPS por preferir realizar tarefas dom�sticas. Falamos ent�o sobre as tarefas pelas quais se responsabilizaria. Durante o dia Esmeralda maquiou-se, cuidou do cabelo, vestiu a roupa que gostava.

Despediu-se de todos na enfermaria e telefonou para a av� para combinar uma visita no fim de semana. Naquele momento n�o sab�amos se o tratamento seria seguido, se seu retorno � casa da m�e daria certo, se o arranjo que havia feito para dar sentido ao furo CliniCAPS, Vol 9, n� 25/26 (2015) � Artigos 66 simb�lico funcionaria por algum tempo. Mas certamente um trabalho importante foi realizado durante a interna��o, a tentativa de reconstru��o por Esmeralda do fim de seu mundo.

Refer�ncias bibliogr�ficas: MILLER, Jacques-Alain. (1999). As contra-indica��es ao tratamento psicanal�tico. Op��o lacaniana � Escola Brasileira Internacional de Psican�lise, n� 25, pp.52-55. QUINET, A. (1997). Teoria e Cl�nica da Psicose. Rio de Janeiro: Forense Universit�ria. VIGAN�, C. (1999) A constru��o do caso cl�nico em sa�de mental. Psican�lise e Sa�de Mental - Revista Curinga, Belo Horizonte, EBP/MG, n. 13, p. 50-59. ZENONI, A. (2000) Psican�lise e Institui��o: A segunda cl�nica de Lacan. Abrecampos. Revista de Sa�de Mental do Instituto Raul Soares, Belo Horizonte, n. 1, pp.09-51 Recebido em: Outubro de 2018 Aceito em: Outubro de 2018

 

 
 






 
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Revista N° 25/26
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